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A escuta como primeiro gesto tradutório




É curioso, e talvez não por acaso, que a maioria das pessoas pense que a tradução começa com palavras. Afinal, é natural imaginar que um ofício que se debruça sobre textos, livros, discursos e línguas seja guiado, quase exclusivamente, por vocábulos. Mas digo com a autoridade de quem há muito vive entre verbos e silêncios: traduzir é, antes de qualquer coisa, escutar. E escutar, não no sentido vulgar de ouvir com os ouvidos, mas no sentido mais profundo, quase sagrado, de acolher o outro em sua linguagem, de oferecer espaço para que a voz alheia possa respirar dentro de nós, mesmo quando essa voz é estrangeira, vacilante ou imperfeita.

Antes de traduzir, é preciso escutar. Escutar com os olhos, sim, mas também com a pele, com a memória, com a intuição, com aquele silêncio interno que nos impede de interferir antes da hora. E essa escuta, por vezes, exige mais paciência do que se imagina, pois nem sempre a frase revela seu sentido à primeira leitura, e há palavras que só se deixam compreender depois de muitos retornos, como se fossem flores que desabrocham apenas ao entardecer, ou cartas escritas numa língua que não dominamos totalmente, mas que ainda assim nos interpela.

É por isso que a pressa é inimiga da boa tradução, e a vaidade, ainda mais. Traduzir requer humildade: reconhecer que não somos os donos do texto, mas seus cuidadores temporários, suas mãos intermediárias. Somos como aqueles que recebem uma herança antiga e delicada, e sabem que sua tarefa é conservá-la, não remodelá-la. E aqui reside uma das belezas mais discretas do ato tradutório: a consciência de que aquilo que carregamos nos pertence apenas na medida em que sabemos devolvê-lo ao mundo com fidelidade, com escuta, com respeito.

Mas o que é escutar um texto? É perguntar-se: o que este autor quis dizer — não apenas com as palavras, mas com o que deixou de dizer? O que está subentendido neste tom, nesta vírgula, nesta escolha lexical tão específica? O que há neste ritmo, neste tempo interno da frase, que ultrapassa a gramática e toca na respiração do pensamento? Escutar um texto é ter a delicadeza de perceber a hesitação, o subtexto, o gesto escondido. É, em suma, entrar em sintonia com um espírito estrangeiro sem a arrogância de querer corrigir-lhe os modos.

Lembro-me de uma ocasião em que traduzi um pequeno poema francês, desses que parecem simples à primeira vista, e levei dois dias inteiros para decidir entre “sombra” e “penumbra”. Duas palavras tão próximas e, ainda assim, tão distintas em sua carga afetiva, simbólica, sonora. Às vezes, a escuta se manifesta nesses detalhes mínimos, mas absolutamente decisivos, que revelam a alma do tradutor e, por extensão, sua ética.

Porque traduzir também é um ato ético. Não apenas no sentido de não trair o autor — o que, aliás, é um mito, pois toda tradução é, em alguma medida, uma traição necessária —, mas no sentido de respeitar a alteridade. De compreender que a língua do outro não precisa ser moldada à nossa imagem e semelhança para que seja válida. Escutar, nesse contexto, é também aceitar o estrangeiro como ele é: com suas arestas, seus ruídos, suas idiossincrasias.

Tenho dito, nas aulas que dou e nas reflexões que compartilho, que o tradutor não é um espelho, mas um vidro fosco: deixa passar a luz, mas nunca de forma transparente. E isso não é um defeito, é uma condição. A escuta, aqui, nos ajuda a aceitar essa imperfeição como parte constitutiva do trabalho — porque escutar é também abrir mão do controle absoluto, é confiar que o sentido se construirá na tensão entre fidelidade e liberdade, entre literalidade e recriação.

E se digo tudo isso com tamanha convicção, é porque tenho aprendido, dia após dia, que a escuta não se dá apenas no início do processo tradutório, mas o atravessa por completo. Traduzir é escutar continuamente: a cada frase, a cada verbo, a cada silêncio. E quanto mais escutamos, mais nos damos conta de que a linguagem é, em sua essência, uma tentativa de alcançar o outro — tentativa sempre incompleta, mas ainda assim necessária.

No fim, talvez traduzir seja isso: escutar um mundo que não é o nosso e, com delicadeza, permitir que ele se manifeste através de nós, sem sufocar-lhe a voz. Um gesto de hospitalidade, sim. Mas também de amor. Amor pelas palavras, pelas culturas, pelas formas de vida que nelas habitam.

E quando falo em amor, não falo de idealizações. Falo de compromisso, de dedicação, de cuidado. Porque amar é, também, escutar. E escutar, como venho dizendo desde o início, é o primeiro gesto de quem traduz — e talvez, também, o mais importante.

Fragmentos do Verbo é este lugar de escuta: não para dizer o que já foi dito, mas para escutar o que ainda se cala.

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                           Armando Cruz

Tradutor | Filólogo Românico | Professor de Idiomas|Curador de Experiências Linguísticas

 

Atelier Linguístico, Cultural & Tradutológico

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